quarta-feira, 15 de abril de 2015

A menina sem palavra, de Mia Couto



A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmixível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.
Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
— “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
— “Mar”…
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elabolou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.

A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
— “Venha, minha filha!”
Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
— “Vamos filha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebenta mundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— “Pai!”
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:
— “Agora, é que nunca”.
A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temedroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?
— “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”…
Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e 0 conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
— “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”
E os dois, iluaminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.


terça-feira, 14 de abril de 2015


OS TRÊS AMIGOS (Anna Celina Outubro de 2014)

Era uma vez três amigos, diferentes em todos os aspectos. Popota, uma hipopótama que sonhava ser bailarina, Simão, o gorila que queria ser trapezista e Juvenal o sapo que gostava de cantar.
Eles eram os melhores amigos que podiam ser, e embora as diferenças entre eles fossem gritantes eles adoravam estar juntos. Popota e Juvenal amavam brincar na água, Simão não preferia ficar de fora deitado na grama só observando os amigos brincando. Mas o que ele mais gostava era de comer bananas, e outras frutas e junto com Popota fazia uma grande algazarra, subia nas árvores jogava as frutas para Popota que juntava todas e depois a sombra de uma mangueira se deliciavam enquanto Juvenal cantava uma canção. Juvenal por sua vez gostava de brincar de pula-pula com Simão ,Popota olhava e aplaudia as cambalhotas que ele dava, para segurança de todos era melhor ela ficar de juíza .E no fim do dia eles voltavam pra casa exaustos mas muito felizes.
Os dias passavam e a amizade dos três só crescia nada os afastava e ninguém entendia como eles tão diferente podiam se dar tão bem. Resolveram então segui-los para descobrir o segredo... Depois de alguns dias desistiram, pois não descobriram nada de diferente, apenas três amigos que gostavam de se divertir. E os três continuavam , brincando, lendo, contando histórias...
E de tanto ouvirem e verem os outros cochichando e apontando pra eles sempre que passavam, resolveram que fariam uma festa ,sim uma festa para comemorar a amizade. Distribuíram os convites, montaram uma mesa com muita fruta, sucos e doces bem na clareira próximo da lagoa. No meio da festa Popota fez uma apresentação de dança ,enquanto Juvenal cantava e Simão se equilibrava num arame. Todos aplaudiram e o show foi um sucesso, todos estavam se divertindo muito e Juvenal resolveu falar um pouco:
-No início de nossa amizade foi um pouco complicado, como dá pra ver somos muito diferentes, e nossas diferenças poderiam atrapalhar nossa amizade, Popota é muito grandona e desastrada, Simão tem muita energia e é trapalhão...
-E Juvenal é muito normal, disse Popota  arrancando risos de todos.
-É isso mesmo, mas nós nos amamos e nos respeitamos e isso é essencial na nossa amizade. Disse Juvenal ainda rindo.
-Nós respeitamos as nossas diferenças, por isso nos damos bem, disse Simão que foi abraçado por Popota...
-Como sou a maior, sempre vou na frente nas expedições que fazemos na mata. Disse Popota toda risonha.
-Eu, consigo subir nos galhos mais altos das árvores e pegar os frutos mais escondidos. Disse Simão estufando o peito.
-E eu, sou o primeiro a pular nos rios e lagoas, assim sei até onde podemos ir sem que meus amigos corram nenhum risco. Disse Juvenal ajeitando a gravata borboleta.
-E assim vamos vivendo, continuou Juvenal, respeitando os limites e convivendo com as diferenças de cada um.
Foram Muito aplaudidos...
Naquele dia todos voltaram para a aldeia pensando, como três amigos tão diferentes podiam dar uma lição de convivência e de respeito tão bonita.

Os três continuaram se divertindo, e já não pareciam tão estranhos para a aldeia, ao contrário tinha sempre novos amigos se unindo a brincadeira...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Recomeço...

Bom Dia...
Esse é um novo momento,depois de muito tempo sem escrever,retomo essa atividade com esperança de que novas histórias brotem da cachola...

"Atrás de sete montanhas
Atrás de sete mares,
Bem longe daqui,
Existe uma lagoa bem azul.
No meio dessa lagoa há uma ilha bem pequena
Na qual cresce uma única árvore.

Ah, mas as folhas dessa árvore são de puro ouro
E brilham na luz do sol
Essa árvore tem muitos galhos,
Bem longos
E na ponta de cada galho há um ninho.
Esses ninhos estão cheios de ovinhos,
E dentro de cada ovinho...
Há um conto de fadas.
Eu fui lá e trouxe-lhes um.
Querem ver? , querem ouvir?
Era uma vez..."
(inspirado num começo para contos de fadas usado na Hungria)


Em breve estarei iniciando um projeto de retorno a lugares por onde passei e onde a vida me foi mais cara...
Boa Segunda feira

segunda-feira, 2 de junho de 2014

DIZENDO ADEUS...Evaldo A.D'Assumpção


Conta-se que um rio nasceu no alto de uma enorme montanha e iniciou a sua jornada...
Foi descendo pela encosta e pouco a pouco foi crescendo,aumentando de volume.Projetou-se numa maravilhosa cachoeira e atingiu o sopé da montanha.Foi abrindo passagem entre as árvores e pedras,algumas mais facilmente,outras com dificuldades.Admirava-se,ora de sua força,ora de sua habilidade para contornar obstáculos...E crescia!!!!
Passou por planícies e por áreas ressecadas...Umedeceu-as dando-lhes condições de acolher as sementes para florescerem e darem frutos.Matou a sede da terra,de povos,de animais e de pássaros.Conheceu outras correntes de água e as reuniu em si,tornando-se maior e mais fecundo.Os peixes multiplicavam-se em suas águas.Era Feliz!!!
Certo dia porém foi despertado para uma realidade :seu caminho seguia inexoravelmente em direção ao mar.Chegaria o momento em que iria penetrar nele e,assim pensava ,desaparecer para sempre.
Pensou um meio de fugir dessa realidade,mas não havia como saltar sobre o mar,nem tão pouco voltar atrás.Os rios não voltam.Ao fazer a grande curva,avistou o mar.Era enorme,parecia não ter fim.Teve medo.
Contudo, percebeu que esse era seu destino.E temeroso,porém confiante,fez a  sua última descida.Entrou no mar...
Descobriu então a grande verdade:entrar no mar não é desaparecer, e sim tornar-se parte dele.O pequeno rio tornou-se parte do mar.Junto com tantos outros rios que haviam chegado de todos os cantos do mundo.
agora ele já não era só.Era parte de um todo,onde,de mãos dadas,todos eram UM.
Desapareceu como um Rio  ,renasceu como MAR!!!!






quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A Bola de Cristal


Conto de autoria dos irmãos Grimm, traduzido do original por Ruth Salles e Renate Kaufmann 

Era uma vez uma feiticeira que tinha três filhos que se amavam fraternalmente; a velha, porém, não confiava neles, pensando que quisessem roubar-lhe o poder. Transformou, então, o mais velho numa águia, que teve de ir morar no alto de uma montanha rochosa; e, de vez em quando, podia-se vê-lo descrever grandes círculos no ar, para cima e para baixo. O segundo ela transformou numa baleia, que vivia nas profundezas do mar; e só se podia vê-lo quando ele, por vezes, esguichava um forte jato de água para cima. Ambos assumiam sua forma humana apenas duas vezes por dia.
O terceiro filho, temendo que ela também o transformasse num animal feroz, saiu de casa às escondidas. Ora, ele ouvira contar que no Castelo do Sol Dourado havia uma princesa encantada aguardando sua libertação. Todo aquele, porém, que tentasse libertá-la era obrigado a arriscar a vida, e já vinte e três jovens tinham morrido de morte horrível; só mais um poderia tentar, e depois a mais ninguém seria permitido.
Como seu coração nada temesse, tomou o mancebo a resolução de procurar aquele castelo. Vagava ele pelos arredores, já há bastante tempo, sem conseguir encontrá-lo, quando se viu numa grande floresta e não sabia onde era a saída. De súbito, avistou ao longe dois gigantes que lhe acenaram com a mão e, assim que ele se aproximou, disseram-lhe: 
- Estamos lutando por causa de um chapéu, para saber a quem deve pertencer; como temos a mesma força, nenhum pode subjugar o outro; os homens pequenos são mais inteligentes que nós, por isso queremos deixar para ti a decisão.
- Como podeis brigar por causa de um chapéu velho? – perguntou o mancebo.
- Tu não sabes as virtudes que ele tem; é um chapéu mágico, e quem o puser na cabeça pode desejar ir aonde quiser e, no mesmo instante, estará lá. 
Disse então o mancebo:
- Dai-me o chapéu! Andarei um pedaço do caminho e, quando eu vos chamar, começai a correr; e o chapéu será daquele que me alcançar primeiro.
Pondo o chapéu na cabeça, ele saiu andando, mas, com o pensamento na princesa, esqueceu os gigantes e continuou a andar. Ora, aconteceu que suspirando do fundo do coração, ele exclamou:
- Ah, se eu estivesse no Castelo do Sol Dourado!
Nem bem falara, encontrou-se no cimo de um alto monte, diante dos portões do castelo.
Ele atravessou todos os aposentos, até que no último encontrou a princesa. Mas que susto levou ao olhar para ela: tinha um rosto cor de cinza, cheio de rugas, olhos baços e cabelos vermelhos.
- Sois vós a princesa cuja beleza todo mundo enaltece? – exclamou.
- Ah! – respondeu ela – esta não é minha aparência, os olhos humanos só me podem ver neste feio aspecto; mas, para que saibas como sou, olha neste espelho; ele não se deixa enganar e mostra minha verdadeira imagem.
Ela pôs em sua mão o espelho, onde o mancebo viu refletido o retrato da mais linda donzela do mundo, e viu como, de tanta tristeza, as lágrimas lhe rolavam pelas faces. Então, ele disse:
- Como podeis ser salva? Eu não tenho medo de perigo algum.
Respondeu ela:
- Quem conseguir a bola de cristal e apresentá-la ao feiticeiro quebrará seu poder, e eu retorno à minha forma verdadeira. Ah! – continuou – por causa disso, vários já foram ao encontro da morte, e tu, tão jovem, tenho pena que te exponhas a tão grandes perigos.
- Nada me pode deter – disse ele – mas dizei-me o que devo fazer.
- Saberás de tudo – ela respondeu. – Descendo do monte onde está o castelo, encontrarás embaixo, junto a uma fonte, um touro selvagem, e com ele deves lutar. Se tiveres a sorte de matá-lo, de dentro dele se erguerá um pássaro de fogo, que leva em seu corpo um ovo incandescente, e esse ovo tem como gema a bola de cristal. O pássaro, porém, não solta o ovo senão quando é forçado a isso; e, se porventura o ovo cai no chão, incendeia-se, e queima tudo ao seu redor, e se derrete e, com ele, a bola de cristal; e todo seu esforço terá sido em vão.
Desceu o mancebo à fonte, onde o boi bufava e bramava para ele. Depois de demorada luta, ele o derrubou. Num piscar de olhos, ergueu-se de dentro o pássaro de fogo e quis alçar vôo; mas a águia, que era o irmão do mancebo e que estava voando por entre as nuvens, precipitou-se sobre ele, perseguindo-o até o mar, e bicou-o até que ele deixou que se soltasse o ovo. Este, porém, não caiu no mar e sim sobre uma cabana de pescador situada na margem, a qual logo começou a fumegar, prestes a ser consumida pelas chamas. Ergueram-se então do mar ondas enormes que, inundando a cabana, dominaram o fogo. O outro irmão, que era a baleia, viera nadando e impulsionara para cima a água. Tendo o fogo sido apagado, o mancebo procurou pelo ovo e, por felicidade, encontrou-o. Ele não se havia derretido, mas a casca, devido ao súbito choque com a água fria, rachara-se, e a bola de cristal pôde ser retirada intacta.
Indo o mancebo apresentá-la ao feiticeiro, este lhe disse:
- Meu poder está desfeito e, de hoje em diante, és o rei do Castelo do Sol Dourado. Com isso, também poderás devolver a teus irmãos a forma humana. 
Correu então o mancebo ao encontro da princesa e, ao entrar em seus aposentos, ela lá estava em todo o esplendor de sua beleza. E ambos, cheios de alegria, trocaram seus anéis.





quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Luas e Luas Autor: James Thurber


Em um reino muito... muito distante...Havia um rei muito... muito preocupado.
Sua filha, princesa Letícia, estava muito... muito doente e passava o dia inteiro de cama...O médico real já havia feito de tudo.
O rei muito... muito preocupado, chegou perto de sua querida filha e perguntou:
— Eu lhe dou tudo o que seu coração quiser... Seu coração quer alguma coisa??
— Sim! — disse a princesa Letícia. — Quero a lua. Só fico boa de novo quando tiver a lua. 
O rei sempre conseguia o que queria. Logo, imaginou que não seria problema conseguir a lua.
Então, o rei chamou o conselheiro real.
Era um homem engraçado... gordo... alto... e com óculos grandes que faziam seus olhos parecerem duas vezes maiores do que realmente eram. Também faziam o conselheiro real parecer duas vezes mais sábio do que realmente era.
E o rei disse: 
— Quero que me consiga a lua. A princesa Letícia quer a lua. Só assim ficará boa de novo.
— A lua?? — disse o conselheiro, arregalando os olhos... que o fez parecer quatro vezes mais sábio do realmente era.
— Sim!! A lua!! — disse o rei.
— Mas... é impossível... A lua fica a 55.000 quilômetros daqui... é maior que o quarto da princesa Léticia. Além de ser feita de cobre. Conseguir a lua?? ...é impossível!!
O rei ficou com muita... muita raiva e mandou ele sair da sala.
Depois chamou o feiticeiro real.
O feiticeiro era baixinho... com um nariz de um palmo e meio... e usava um chapéu pontudo cheio de estrelas...
Ficou branco como a lua quando o rei lhe disse o que queria.
Então, o feiticeiro disse:
— Mas... é impossível... A lua fica a 250.000 quilômetros daqui... é maior que esse palácio . Além de ser toda feita de queijo. Conseguir a lua?? ...é impossível!!
O rei ficou com muita... muita raiva e mandou ele sair da sala.
Depois, chamou o matemático real.
Era um homem careca, com um lápis em cada orelha... e que vivia fazendo contas...
Principalmente, quando o rei lhe disse o que queria... 
Então disse:
— Mas... é impossível... A lua fica a 500.000 quilômetros daqui... é maior que todo esse reino. Além de ser toda feita de prata... e é redonda e chata como uma moeda. Conseguir a lua?? ...é impossível!!
O rei ficou com muita... muita... muita raiva e mandou ele sair da sala.
Depois chamou o bobo da corte.
O bobo chegou alegre e saltitante... e disse:
— O que posso fazer pelo senhor, Majestade?
E o rei disse, melancólico:
— Ninguém pode fazer nada por mim... A princesa Letícia quer a lua... mas ninguém pode consegui-la. Ah! Ninguém pode fazer nada por mim... por favor toque algo em seu alaúde... toque algo bem triste...
O bobo da corte começou a tocar algo no alaúde e perguntou:
— Mas o que eles disseram??
— Bom... o conselheiro real disse que era impossível... que a lua fica a 55.000 quilômetros daqui... é maior que o quarto da princesa Léticia. Além de ser feita de cobre. Já o feiticeiro real disse que era impossível... que a lua fica a 250.000 quilômetros daqui... é maior que esse palácio. Além de ser toda feita de queijo. E o matemático real disse que era impossível... que a lua fica a 500.000 quilômetros daqui... é maior que todo esse reino. Além de ser toda feita de prata... e é redonda e chata como uma moeda.
O bobo da corte pensou... e disse:
— São todos sábios... e todos devem estar certos... a lua deve ter exatamente o tamanho e a distância que cada um acha que tem... A questão é descobrir de que tamanho a princesa Letícia acha que ela é, e a que distância se encontra.
— Não tinha pensado nisso — disse o rei.
— Vou lá perguntar a ela, Majestade.
A princesa Letícia ficou feliz ao ver o bobo da corte...
— Você trouxe a lua para mim?? — perguntou ela.
— Ainda não... mas vou consegui-la. De que tamanho você acha que ela é?
— Ah! A lua é um pouquinho menor que a unha do meu dedão... Porque quando a coloco na frente da lua, ela a cobre direitinho...
— E a que distância ela fica?
— Não fica muito longe... Às vezes fica presa nos galhos mais altos dessa árvore do jardim real.
— Ah! Vai ser facílimo conseguir a lua para você. Vou subir na árvore esta noite, e quando estiver presa nos galhos vou pegá-la para você. Ah!! Mais uma coisa... A lua é feita de quê, princesa Letícia??
— Oh! Bobo da corte, mas como é bobinho... A lua é feita de ouro, é claro.
O bobo da corte foi correndo até o joalheiro real e pediu-lhe que fizesse uma luazinha redonda de ouro, só um pouco menor que a unha do polegar da princesa. Depois pediu que a pendurasse numa corrente de ouro, para que a princesa pudesse usá-la no pescoço.
O bobo da corte levou a lua para a princesa que ficou tão... tão feliz que no dia seguinte pulou bem cedo da cama e foi brincar no jardim real.
Porém, o rei continuava muito... muito preocupado.
Então, o rei logo chamou o conselheiro real.
— Precisamos esconder a lua — disse o rei. — Se a princesa Letícia vir a lua no céu, vai achar que mentimos para ela e ficará doente de novo e isso eu não posso suportar... Você precisa impedir que a princesa Letícia veja a lua brilhar no céu esta noite. Pense em alguma coisa.
O conselheiro pensou... pensou... e depois falou:
— Já sei!! Vamos fazer óculos escuros de forma que quando usá-los não vá enchergar nada.
O rei ficou muito zangado:
— Ficou louco?? Se ela não ver nada, vai sair esbarrando nas coisas e pode até se machucar...
O rei ficou com muita... muita raiva e mandou ele sair da sala.
Depois chamou o feiticeiro real.
— Precisamos esconder a lua — disse o rei. — Se a princesa Letícia vir a lua no céu, vai achar que mentimos para ela e ficará doente de novo e isso eu não posso suportar... Você precisa impedir que a princesa Letícia veja a lua brilhar no céu esta noite. Pense em alguma coisa.
O feiticeiro pensou... pensou... e depois falou:
— Já sei!! Vamos fazer um grande cortina de veludo negro para contornar todo o palácio, assim ela não poderá ver a lua.
O rei ficou muito zangado:
— Ficou louco?? Assim o ar não vai entrar e ela pode adoecer.
O rei ficou com muita... muita raiva e mandou ele sair da sala.
Depois chamou o matemático real.
— Precisamos esconder a lua — disse o rei. — Se a princesa Letícia vir a lua no céu, vai achar que mentimos para ela e ficará doente de novo e isso eu não posso suportar... Você precisa impedir que a princesa Letícia veja a lua brilhar no céu esta noite. Pense em alguma coisa.
O matemático pensou... pensou... calculou... calculou... e depois falou:
— Já sei!! Vamos soltar fogos de artifício todas as noite no jardim real assim ela não vai enxergar a lua com tanto brilho no céu.
O rei ficou muito zangado:
— Ficou louco?? Com essa barulheira toda ela não vai dormir e vai adoecer de novo.
O rei ficou com muita... muita... muita raiva e mandou ele sair da sala.
Então, chamou o bobo da corte.
O bobo chegou alegre e saltitante... e disse:
— O que posso fazer pelo senhor, Majestade?
E o rei disse, melancólico:
— Ninguém pode fazer nada por mim... Ninguém consegue esconder a lua para mim... Quando anoitecer, a princesa Letícia vai ver a lua... e vai achar que mentimos para ela e vai adoecer novamente. Ah! Ninguém pode fazer nada por mim... por favor toque algo em seu alaúde... toque algo bem triste...
O bobo da corte começou a tocar algo no alaúde e perguntou:
— Mas o que eles disseram??
— O Conselheiro sugeriu óculos escuros; o feiticeiro, cortinas por todo o reino; e o matemático, fogos de artifício...
E o bobo disse...
— Seus sábios conhecem tudo... se eles não conseguem esconder a lua, é porque não é possível escondê-la.
E rei deu um salto ao ver a lua surgindo no céu...
— Olhe!! — gritou. — É a lua brilhando no céu. Quem vai explicar como a lua pode estar no céu se está pendura em volta do pescoço dela?
E bobo disse:
— Bom... Quem soube dizer como conseguir a lua quando seus sábios disseram ser impossível?
— Foi a princesa Letícia.
— Portanto, a princesa Letícia sabe mais que os sábios e conhece melhor a lua do que eles... vou perguntar a ela...
E antes que o rei pudesse impedi-lo, o bobo da corte já estava entrando no quarto da princesa...
Ao vê-la na janela contemplando a lua... ficou muito triste e uma lágrima brotou de seus olhos...
— Diga-me, princesa Letícia... Como a lua pode brilhar no céu se ela está pendurada numa corrente em volta de seu pescoço?
A princesa olhou e riu...
— Oh! Bobo da corte, como você é bobinho... Então não sabe?? As luas são como dentes de leite... Quando uma cai, nasce outra no lugar!!

FIM

domingo, 29 de julho de 2012

A Caminho das Estrelas


Era uma vez um menino, que nasceu no dia de São Sabino, na rua das Virgens,Luís foi batizado aos 5 meses pelo Pe. João Maria, hoje o Santo de Natal.
Cresceu cercado de carinho e cuidados, ouvindo estórias contadas por sua babá Dona Bibi, desde cedo enveredou pela cultura... Esse menino agora era o jovem Luís da Câmara Cascudo que desejava ser médico, foi para Bahia e para o Rio de Janeiro, mas deixou o curso no 4º ano. Ingressou na Faculdade de Direito no Recife e lá se formou. Antes disso, finalizou seu sonho de Jornalista no Jornal A Imprensa fundado 10 anos antes por seu Pai. Lá iniciou seus escritos através da coluna Bric-a-Brac.
E o tempo passou... Passou e eis que um dia o belo jovem  de olhos azuis encontrou aquela que seria seu maior amor,porto-seguro,companheira de todas as horas...Sua Flor sem espinhos,Dahlía,que por sinal era a rosa de predileção de sua mãe.
Esse Advogado, Antropólogo ,Historiador,Jornalista,Folclorista ,mas acima de tudo e como gostava de ser chamado,Professor Luís da Câmara Cascudo,encantou-se num 30 de julho de 86,aos  87 anos,chamando por quem mais amava no mundo:
­­_Ai Dahlia!!!
“ Mas a viagem Cascudeana não terminou com a morte.Segue,agora,a caminho das estrelas”.Ele mesmo dizia: “ Como a morte existe,os mortos não!...”
E assim encantou-se,mas ainda vive,e viverá sempre que usar um provérbio,se fizer um gesto,dançar um Boi-de-Reis,ouvir ou contar uma história,lá estará ele o Homem que redescobriu o Brasil.